O VELHO E O AR
Convidado pelo Thomas a escrever algo para o Blog do Campeonato, resolvi abordar um dos aspectos que acho mais interessantes no nosso esporte.
Como aquele do romance do Hemingway, pescadores de todos os tempos procuram o grande peixe, capaz de desafiá-los à altura. Volovelistas procuram a grande térmica, “The Big One”, única e perfeita, que lhes permitiria completar o mais difícil dos vôos planados. Mas tal façanha seria, já sabemos, para uns poucos eleitos, capazes não só de achá-la como de explorá-la em todo o seu potencial. Mas a grande térmica poderia tomar também outras identidades e formas, representando um prêmio a ser concedido a todos os que fizerem por merecer.
Assim, achar o equilíbrio entre as coisas existentes no dia-a-dia e o tamanho de nossas ambições poderia levar a uma vida plena de desfrute, no nosso e em outros esportes.
Pensei sobre isto ontem, quando ao me preparar para a decolagem em mais uma prova da competição, fui abordado de modo inesperado, mas gentil, pelo repórter de uma TV. Perguntou-me, cheio de cuidados e preâmbulos, dizendo não querer ser indiscreto, qual a minha idade. ”- 64”, disse-lhe eu. Diante do sorriso meio admirado e meio espantado, que ele mal disfarçou, continuei lhe dizendo que nosso esporte tem, como uma característica rara na maioria dos esportes, a convivência de pilotos de todas as idades, unidos permanentemente pelo amor ao vôo. “Não há limitações?” , perguntou ele de volta e respondi que apenas a condição física e psicológica de cada um. Seguiram-se outras perguntas e respostas, o rebocador já havia engatado, e ele saiu com sua matéria encaminhada.
Naquela tarde, após o vôo, encontrei-me na cantina com o amigo Heinz. Uma vida inteira dedicada ao vôo a vela, plena de prazer por voar. Exemplo de companheiro, conselheiro e amigo, irradia aos jovens de todas as idades seus conhecimentos de vôo e sua história de vida.
Todos gostamos de vê-lo, com pouco mais de 80 anos, ainda voando de co-piloto ou trabalhando duramente como equipe de terra. Ouvimos atentos seus conselhos, suas experiências, sua história pessoal. Nesses momentos, não importa que sejamos mais jovens do que ele em 20, 40 ou 60 anos.. Ali, não somos mais novos, somos amigos que falam do que gostam de fazer. No máximo, temos de um lado a paciência didática e do outro a atenção curiosa.
Eu gostaria de ter começado a voar com 14 anos e ter continuado no mesmo esporte até agora, como ele. Mas, com as voltas que o mundo dá, talvez assim não nos tivéssemos conhecido, e seria pior.
Neste campeonato brasileiro de 2007, Formosa está perfeita: muitos planadores, uma mistura de pilotos jovens e pilotos experientes, o tempo permitindo provas fantásticas, o calor humano emanando dos amigos de sempre.
Essa harmonia entre pessoas, máquinas, lugares e condições do tempo conduz a momentos únicos em nossas vidas. Momentos que, reunidos, poderiam muito bem representar o encontro com ela, a “Big One”. Assim como na vida de nosso querido amigo Heinz.
A. Marinho Jr
Formosa, 11 de setembro de 2007
Como aquele do romance do Hemingway, pescadores de todos os tempos procuram o grande peixe, capaz de desafiá-los à altura. Volovelistas procuram a grande térmica, “The Big One”, única e perfeita, que lhes permitiria completar o mais difícil dos vôos planados. Mas tal façanha seria, já sabemos, para uns poucos eleitos, capazes não só de achá-la como de explorá-la em todo o seu potencial. Mas a grande térmica poderia tomar também outras identidades e formas, representando um prêmio a ser concedido a todos os que fizerem por merecer.
Assim, achar o equilíbrio entre as coisas existentes no dia-a-dia e o tamanho de nossas ambições poderia levar a uma vida plena de desfrute, no nosso e em outros esportes.
Pensei sobre isto ontem, quando ao me preparar para a decolagem em mais uma prova da competição, fui abordado de modo inesperado, mas gentil, pelo repórter de uma TV. Perguntou-me, cheio de cuidados e preâmbulos, dizendo não querer ser indiscreto, qual a minha idade. ”- 64”, disse-lhe eu. Diante do sorriso meio admirado e meio espantado, que ele mal disfarçou, continuei lhe dizendo que nosso esporte tem, como uma característica rara na maioria dos esportes, a convivência de pilotos de todas as idades, unidos permanentemente pelo amor ao vôo. “Não há limitações?” , perguntou ele de volta e respondi que apenas a condição física e psicológica de cada um. Seguiram-se outras perguntas e respostas, o rebocador já havia engatado, e ele saiu com sua matéria encaminhada.
Naquela tarde, após o vôo, encontrei-me na cantina com o amigo Heinz. Uma vida inteira dedicada ao vôo a vela, plena de prazer por voar. Exemplo de companheiro, conselheiro e amigo, irradia aos jovens de todas as idades seus conhecimentos de vôo e sua história de vida.
Todos gostamos de vê-lo, com pouco mais de 80 anos, ainda voando de co-piloto ou trabalhando duramente como equipe de terra. Ouvimos atentos seus conselhos, suas experiências, sua história pessoal. Nesses momentos, não importa que sejamos mais jovens do que ele em 20, 40 ou 60 anos.. Ali, não somos mais novos, somos amigos que falam do que gostam de fazer. No máximo, temos de um lado a paciência didática e do outro a atenção curiosa.
Eu gostaria de ter começado a voar com 14 anos e ter continuado no mesmo esporte até agora, como ele. Mas, com as voltas que o mundo dá, talvez assim não nos tivéssemos conhecido, e seria pior.
Neste campeonato brasileiro de 2007, Formosa está perfeita: muitos planadores, uma mistura de pilotos jovens e pilotos experientes, o tempo permitindo provas fantásticas, o calor humano emanando dos amigos de sempre.
Essa harmonia entre pessoas, máquinas, lugares e condições do tempo conduz a momentos únicos em nossas vidas. Momentos que, reunidos, poderiam muito bem representar o encontro com ela, a “Big One”. Assim como na vida de nosso querido amigo Heinz.
A. Marinho Jr
Formosa, 11 de setembro de 2007
2 Comentários:
Grande Marinho... Abraços e obrigado por compartilhar conosco sua sabedoria...
Esta mensagem é do Heinz,
Marinho, obrigado pelos seus comentários bondosos, só posso dizer que me sinto feliz porque pertenço a um grupo de amigos sinceros que comungam o mesmo ideal que eu. Por esta razão me sinto tão contente, e se deus quiser ele dará uma "colher de chá" e faremos tudo isso por muito mais tempo, Abraços, Heinz
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